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RAÍZES e LAÇOS

algumas famílias nordestinas
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ANTÔNIO DE BARROS CARVALHO

 UM MENINO DE ENGENHO


Era um menino de engenho. Deveria ter-se chamado Antonio da Costa Gouveia de Barros Carvalho Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque Maranhão, e mais alguns desses sobrenomes em que mergulham as raízes da frondosa genealogia pernambucana e nordestina em geral.

Era assim que se assinava nos primeiros cadernos escolares, no engenho dos dias da infância, repetindo pomposamente os nomes de avós e bisavós.

O exercício da vida urbana, a que foi levado desde cedo, dentro da privilegiada rotina dos filhos de senhores de engenho do século passado e das primeiras décadas deste século, iniciada no colégio interno do Recife, depois na Faculdade e na vida pública, simplificou, aos poucos, como se vê também em seus cadernos juvenis, a pompa ingênua e soberba, embora lefítima, dos caudalosos apelidos familiares, tão ao gosto da antiga gentry pernambucana.

Passou a assinar-se Antônio Gouveia de Barros Carvalho. Mais tarde deixou de lado também um desses sobrenomes, para assinar-se, definitivamente, Antônio de Barros Carvalho. Todos os seus irmãos adotaram, igualmente, a solução mais cômoda, à exceção de um deles (Gastão), que esoclheu chamar-se Carvalho e Albuquerque, como o pai. (Nota de Delano Carvalho: Todos os filhos do Coronel José de Carvalho e Albuquerque e sua esposa Francisca Gouveia de Barros foram registrados, ao nascerem, com o sobrenome Barros Carvalho, portanto, não foram os filhos que escolheram o sobrenome, mas sim os pais).

O assunto já foi objeto de curiosas observações de Gilberto Freyre sobre a forma arbitrária com que as pessoas no Brasil se habituaram a compor os sobrenomes, desde os primeiros dias da formação das famílias coloniais, numa prática genealógica liberal, às vezes embaraçosa e ininteligígel, para desespero e tortura dos estudiosos da genealogia brasileira. Não chega a ser o caso dos Barros Carvalho, que, de qualquer modo, mantiveram uma das marcas gentílicas do ramo paterno e materno de sua tribo.

Antonio de Barros Carvalho nunca se despediu, na verdade, dos engenhos da infância. Guardou, para sempre, sua identidade de menino de engenho, com as qualidades e os sestros dos filhos de senhores de engenho. Eles fundaram, não tanto uma oligarquia, mas um estilo de vida até hoje presente na cultura da sociedade nordestina oriunda da cana-de-açucar, da vocação para o poder, para o culto da tradição, da honra pessoal, do bom gosto na arte de vestir e de morar, nos prazeres da boa mesa, das boas letras e das belas-artes e para a aventura das revoluções liberais. A velha bravura pernambucana e o caráter democrático que é próprio do povo da região, desde o século XVI, com seus baronetes rurais cavalheirescos e generosos, encontram seu justo contraponto no fermento das guerras populares e das rebeliões que ainda hoje consagram a efervescência vanguardista da famosa "poeira das ruas" da cidade do Recife -- a "noiva da liberdade", como a chamaria um de seus poetas.

Os familiares se lembram do elegante sexagenário, já deputado, senador, ministro de Estado e líder parlamentar do governo, mas que era ainda e sempre o menino do canavial de seus engenhos patriarcais. E às vezes, na cadeira de balanço de jacarandá antigo, em sua mansão do Cosme Velho, cheia de móveis e memórias pernambucanas, repetia o verso de seu amigo e parente, o poeta Ascenço Ferreira, nascido como ele na romântica cidade de Palmares:

Esperança! Estrela d'Alva! Flor do Bosque!

Bom Mirar!

Dos engenhos de minha terra

Só os nomes fazem sonhar.

E em seguida, começando sempre por aquele onde nascera, recitava, nostálgico, em tom de ladainha, os nomes dos dezessete engenhos de seus pais e dos pais de seus pais:

Camevou, Massaranduba, Mato Grosso,

Catuama, Limão Doce, Cucaú,

Oncinha, Burarema, Cabuçu,

Gavião (Fazenda), Santo Antônio, Catolé,

Barra (Fazenda), Liberdade, Conceição,

Califórnia, Jussaral...

 

Uma vez, na noite estéril da cidade estéril de Brasília, chamou seu fiel motorista alagoano, convidou-o num inesperado gesto liberal, para um copo do Borgonha que bebia com seus colegas, o senador Francisco Pessoa de Queiroz, o senador Nogueira da Gama e o velho amigo Manuel Carneiro da Cunha, descendente como ele de senhores de engenho, e como ele sabedor das coisas do Nordeste.

Com o copo na mão, estendeu os olhos para a desolada paisagem da sinistra capital. E como tocado por profundo desprezo pela superquadra artificial, pela impostura de uma arquitetura enganosa, de um urbanismo equivocado, e pelo apartamento neutro e desumano que lhe haviam destinado, como senador e como ministro, repetiu, como se brindasse um passado morto, a velha litania de seus dezessete engenhos. Tinha uma lágrima no canto do olho, e concluiu imitando o verso e a voz do poeta Ascenço:

Dos engenhos de minha terra

Só os nomes fazem chorar.

Era, à época, uma presença importante na política de seu Estado e na vida pública do pais. Presidia, em Pernambuco, o partido de maior representação parlamentar no Congresso. Elegera os três senadores da bancada pernambucana. Tinha exercido, com brilho, as funções de Ministro de Estado, e ocupava o posto de líder da maioria e líder do governo no Senado. Mas o que importava, para ele, era o rosário dos dezessete engenhos que não tinha mais. A lembrança deles, porém era um patrimônio permanente, sobre o se construiríam as tradições de sua terra, e de que fazia as galas de sua honra e de sua identidade de brasileiro de quatrocentos anos. Em marcha para os Quinhentos -- gostava de dizer.

Estes ingredientes, como para os herdeiros dos bandeirantes paulistas, também no Nordeste não costumam levar a linhagem dos antigos fundadores da região à arrogância nem à prepotência nem ao culto do dinheiro, mas à assiduidade dos compromissos com a continuidade histórica do país e do povo. A esta linhagem pertencia Joaquim Nabuco, figura exemplar da vida pública e da vida cultural de sua terra. Oriundo de egrégias tradições familiares, tornou-se um autêntico homem do povo, defensor dos escravos e dos oprimidos, que -- como Barros Carvalho diria num de seus pronunciamentos, ao ingressar no Partido Trabalhista Brasileiro, um partido de massas -- fora o primeiro líder pernambucano daquilo que os conservadores impenitentes chamariam depois "a poeira das ruas do Recife". "Poeira de ouro"-- costumava acrescentar.

Estas breves observações prévias são, de certo modo, necessárias e indispensáveis para o perfil e a memória que aqui se deseja fixar, do menino dos dezessete engenhos, que se chamaria Antônio da Costa Gouveia de Barros Carvalho Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque Maranhão, e que deixou o exemplo de uma vida dedicada ao serviço da política, da cultura, da honradez, da integridade e do bom gosto, que são a melhor tradição e o mais nobre capital dos que primeiro inventaram o Brasil nas ribeiras atlânticas de Pernambuco e do Nordeste.

Foi dali que brotaram algumas das mais duradouras figuras de homens públicos do país e do Império, e antes mesmo da fundação da independência, geralmente tocados pela fidelidade às causas que abraçavam e defendiam até à morte. Ali, de certo modo, todos se julgam herdeiros dos heroísmos e das bravatas da guerra holandesa e dos primeiros gritos da independência, certos de que foi em seu chão que nasceu a nacionalidade, como está na inscrição lapidar mandada gravar pelo Exército no monumento dos Guararapes.



 


Fonte:

Mourão, Gerardo Mello - Um Senador de Pernambuco - Breve Memória de Antônio de Barros Carvalho - Topbooks Editora, 1999, 190 pp (pp 15-18)