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RAÍZES e LAÇOS

algumas famílias nordestinas
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LEONARDO ORLANDO DE BARROS
o coronel abolicionista

LEONARDO ORLANDO DE BARROS, meu bisavô paterno, foi senhor de muitos engenhos na zona da mata de Pernambuco, especialmente em Palmares, onde era dono do Engenho Camevou (Cá-me-vou) e Santo Antônio (este na divisa com Água Preta). Nesses dois engenhos nasceram seus nove filhos - oito varões e uma mulher.

Ao contrário do meu outro bisavô paterno, o Major Antônio de Carvalho Albuquerque, Leonardo era Liberal. Deu liberdade a seus escravos um ano antes da Lei Áurea.  Autodidata, falava várias linguas, inclusive o dialeto indígena. Era também poeta, músico e compositor, segundo os relatos de vovó Franciscquinha.

Estudando o cultivo da cana, foi responsável pelo desenvolvimento de novas variedades, em sua interminável busca por uma que resistisse às pragas nordestinas. Construiu em Pernambuco a primeira casa de farinha, em nível industrial.
Sua vida merece um estudo mais detalhado, que algum dia gostaria de fazer, mas para adiantar transcrevo abaixo o que nos conta Gerardo Mello Mourão no seu livro intitulado - Um Senador de Pernambuco - Breve Memória de Antônio de Barros Carvalho Topbooks, 1999, 199 páginas. (págs. 26 a 31).

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Leonardo Orlando de Barros foi filho e neto de Albuquerques e Cavalcantis, da árvore dos Rego Barros, do conde da Boa Vista (Francisco do Rego Barros), descendente em linha direta de Jerônimo de Albuquerque e de Catarina de Albuquerque, de Maria do Espírito Santo Arcoverde, dos Albuquerque Melo, dos Cavalcanti e dos Albuquerque Maranhão"

"Leonardo, filho do coronel Manuel de Albuquerque Barros Cavalcanti e de Ursulina de Castro Sá Barreto- dos Sá Cavalcanti, de Ipojuca - começou a aumentar seu patrimônio ao casar-se com dona Francisca Caraciola da Costa Gouveia, filha do coronel João Bento de Gouveia, gente de costados na Casa da Torre e nos primeiros donatários da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira e Dona Brites de Albuquerque. Este João Bento era marido de dona Rita Enedina da Costa, filha do português José da Costa, chegado ao Recife no final do século XVIII, em mil setecentos e tantos.

A família ainda hoje guarda a lenda deste Costa. Saiu de Portugal em circunstancias dramáticas e pitorescas. Perseguido por agentes de justiça, com ordens de arrastá-lo, vivo ou morto – perseguido no sentido literal da palavra - escapou em desabalada carreira pelas ruas de Lisboa, alcançando um navio que se preparava para partir, no qual se meteu com a roupa do corpo, sem saber para onde ia, até que os marinheiros o despejassem, afinal, nas praias do Recife. A versão mais corrente é a história de uma pedrada atirada a esmo, numa praça de Restelo, que teria atingido a cabeça de um cortesão ou de um clérigo poderoso, que mobilizou os beleguins no encalço do rapaz.

Bendita pedrada! Ao dar com os costados em Pernambuco, depois de arranjar-se em ocupações modestas, ajudado pela versão do que seria, para uns, um fidalgo rebelde, para outros o filho estróina de uma família rica de Portugal, o Costa, com a velha sagacidade mercantil dos portugueses, casou-se bem, foi adotado pela sociedade pernambucana, e acabou senhor de canaviais, tendo deixado aos descendentes um surpreendente inventário de engenhos de nomes sonoros. Era dono dos engenhos Cucaú, Catuama, Burarema, Oncinha, Conceição, Cabuçu, Limão Doce, Maçaranduba e outros. 

O português deu à filha Rita, como presente ou dote de casamento, o valioso Engenho Mato Grosso, do qual a bisneta, Dona Francisquinha, nos manuscritos de seu diário de Sinhá de Engenho, recolhidos pela filha Suané (Lúcia de Barros Carvalho - Lúcia Nóbrega) - diz que era um "portentoso engenho imenso e lindo". Maior do que aqueles que ela mesmo recebeu também como dote, o Engenho Camevou (Onde nasceram Carlos e Antonio de Barros Carvalho), adquirido de um parente rico e solteirão, o capitão José Cardoso de Araújo, cunhado do Barão de Contendas, (Antônio Epaminondas de Barros Correia) e o engenho Santo Antonio – terras das reinações de infância e da adolescência dos oito filhos homens e da filha do Coronel Carvalhinho e dona Francisquinha.

Os senhores de engenho foram, muitas vezes, precursores das mais avançadas reformas políticas, econômicas e sociais de seu tempo. Entre eles se recrutaram os primeiros partidários da República, os mais apaixonados abolicionistas e os mais progressistas pioneiros da agroindústria de seu tempo. O avô materno dos Barros Carvalho, coronel Leonardo Orlando de Barros, é um fascinante exemplo desse tipo esclarecido de senhores de engenho. Era uma espécie de iluminista "à l'état sauvage" - para usar a expressão de Claudel sobre Rimbaud.

Antônio (Antônio de Barros Carvalho) era fascinado pelas histórias deste avô. Quando senador, deu uma vez uma entrevista ao jornalista Aderson Magalhães, do então prestigioso Correio da Manhã, interessado em documentar as experiências sociais e as reformas introduzidas pelo coronel Leonardo nas atividiades de seus engenhos pernambucanos. Uma delas merece ser contada aqui, até por seu caráter pitoresco.

O coronel era autodidata, mas apaixonado por todo tipo de leitura. Aprendeu francês sozinho, comprava livros franceses e revistas francesas de agricultura, junto com as publicações nacionais que mandava vir de São Paulo. Um dia leu numa dessas revistas que em São Paulo havia uma formiga terrível, a saúva, que de acordo com o que lera em periódicos franceses, tinha todas as características dos himetópteros que atacam e destroem os insetos malígnos que provocam a broca da cana. Não teve dúvidas: encomendou ao Departamento de Agricultura de São Paulo, ou a uma escola de Piracicaba, um carregamento de saúvas. O pedido insólito foi despachado, e os fornecedores, como a Alfândega do Recife, acreditaram que se tratava dum entomologista interessado em estudar as formigas ruivas.

O coronel recebeu a carga preciosa, entupiu de saúvas seus canaviais e ainda ofereceu as sobras a alguns amigos, progressistas como ele, nas experiências da lavoura. Resultado: matou as larvas da broca, mas em compensação introduziu em Pernambuco uma praga pior - a praga da saúva, da qual diria anos depois Monteiro Lobato que "ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil."
 



Dona Francisquinha (Francisca Gouveia de Barros) e o Coronel Carvalhinho (José de Carvalho e Albuquerque)
Foto das Bodas de Diamante do casal - Recife, Pernambuco - 1955

A mãe de Antônio (Antônio de Barros Carvalho) , dona Francisquinha, conta em seu Diário:

"Meu pai entendia de todas as artes. Poetava nas noites do engenho, e enchia cadernos de versos sentimentais, metrificados e rimados, no tom dos românticos da moda. Não tocava nenhum instrumento, mas sabia música e ensinava a qualquer um que quisesse aprender, como ensinou aos filhos piano, flauta e violão. Dançava muito bem - conta a filha - e nos adestrou na "quadrilha", na polka, na "valsa", "shots" e "lanceiros". Eram as danças de salão da época." Como agricultor - conta ainda a filha memorialista - passou anos lutando para obter a semente da cana nascida na flor da flecha.

O sistema utilizado era plantar o broto da cana. Aprendera em suas leituras, e em seu saber de experiências feito, que a cana brotada da semente não viria já atacada pelas pragas, como ocorria com o broto de socas, re-socas e contra-socas. A praga da broca da cana era um flagelo naquele tempo. Os senhores de engenho apelavam para os conhecimentos de Leonardo, mas o processo por ele adotado, até por ser pioneiro e inédito, era lento e aleatório. Muitos já duvidavam do êxito, e achavam que Leonardo estava perdendo tempo.

Mas o coronel era teimoso. Levou anos em suas experiências, até que um dia viu surgir o broto vivo de uma semente de cana. A alegria do pesquisador não foi menor do que a importância da descoberta para a salvação dos canaviais. A princípio, os pantadores vinham a seu engenho mais incrédulos do que esperançosos, e só se convenciam depois de ver o broto verde rompendo a semente minúscula. O coronel plantou imensos canaviais com sua cana limpa, e passou a produzir vários tipos da semente saudável, que distribuiu entre os colegas dos engenhos da várzea. Criou várias espécies de cana, classificando-as com nomes que escolhia.

A uma chamou de "Leonardo", dando-lhe seu próprio nome. A outra chamou de "Arcoverde", em homenagem a seu primo, Dr. Leonardo Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti. Criou a cana "Botocuda" e a cana "Melo", em homenagem a seu grande amigo, vizinho e compadre, o coronel Pihauhylino Gomes de Mello (a quem pertenceu o Engenho Camevou). E várias outras, cujos nomes a improvisada memorialista, já septuagenária, não conseguia recordar.

Ainda instruido por suas leituras especializadas, construiu a primeira casa de farinha em Pernambuco, capaz de processar trinta cuias por dia, o equivalente a cerca de um alqueire, ou trinta litros, com apenas dois empregados, o que reduzia em noventa por cento a necessidade da mão de obra. Em seu Engenho Camevou instalou a primeira restilaria do Estado, capaz de produzir os mais refinados tipos de álcool bidestilado.

Era republicano e abolicionista, amigo de Joaquim Nabuco, Marins Júnior, Silva Jardim e José do Patrocínio, com eles mantendo ativa correspondência em torno das atividades abolicionistas. Gozava de grande prestígio entre todos os senhores de engenho da região, e a imagem que todos tinham dele era de um homem exemplar por sua bravura, por seu cavalheirismo, pela firmeza de sua palavra e por seu sentimento de honra pessoal.

Nunca aceitou postos de governo. E do poder público valeu-se apenas uma única vez: o Barão de Lucena (Henrique Pereira de Lucena), seu parente próximo e seu grande amigo, por cuja causa lutara ativamente, ao eleger-se governador (* 05/11/1872 a 10/05/1875), insistia para que escolhesse a posição que quisesse em seu governo. Leonardo tinha um único desafeto em Pernambuco: um senhor de engenho vizinho à sua propriedade, que montara em suas terras uma quadrilha de ladrões de cavalo, e vivia depredando, a ferro e fogo, em surtidas criminosas, as reservas de animais dos outros proprietários.

Disse ao seu parente Barão de Lucena que não queria nada: apenas ser delegado de Bentevi por um dia, e que o chefe de polícia pusesse sob suas ordens, também por um dia, duzentos soldados. Invadiu o engenho do ladrão de cavalos, apreendeu todo o seu arsenal e acabou com o abigeato que intranquilizava a região. Conta-se que o chefe de bando então castigado, que era também senhor de engenho, dizia, até o fim da vida, que só de uma coisa tinha vergonha: de não ter merecido a amizade do coronel Leonardo.

O coronel que teve a coragem de importar a saúva não teve receio de correr outro risco: passou a ser um ativista na campanha da abolição. Quando ela chegou, já fazia mais de um ano que não havia escravos em suas propriedades. Recebeu pelo telégrafo a notícia da abolição, reuniu os antigos escravos que continuavam a viver no engenho, mandou que convidassem todos os outros dos engenhos em redor, chamou todos os senhores de engenho da redondeza e promoveu festa de arromba no terreiro da casa-grande. A filha memorialista (Francisca Gouveia de Barros), que participou da festa, conta a história:

"Meu pai reuniu os ex-escravos no terraço, comunicou-lhes que tinha sido decretada a abolição, e que não havia mais escravos no Brasil. Muita emoção, muitos vivas e palmas foram dados à princesa Isabel. Meu pai fez um discurso que comoveu a todos e disse-lhes que em regozijo realizassem uma festa, convidando seus colegas e os senhores seus amigos; ele daria o vinho e tudo quanto fosse necessário. Mandou matar os garrotes, os carneiros, os bodes, os porcos e as galinhas-d'angola para o banquete. Os ex-escravos engalanaram a casa do engenho, improvisaram-se mesa para mais de duzentos talheres, fizeram os convites.

Compareceram muitos escravos e amigos de meu pai. Comeram e beberam à vontade, dançaram um dia e uma noite, os brancos se misturaram com os negros, as sinhazinhas serviram a mesa, reinou muita alegria. Acabadas as comemorações, cada um tomou um novo rumo. Uns ficaram trabalhando para meu pai, recebendo seu salário; ele lhes deu uma posse de terra para plantarem cana ou o que quisessem."

Este é um breve retrato do avô de Antônio de Barros Carvalho, o senhor de engenho que ele mais admirava em sua família, filho e neto de Albuquerques e Cavalcantis, da árvore dos Rego Barros, do Conde da Boa Vista, descendente em linha direta de Jerônimo de Albuquerque e de Catarina de Albuquerque, de Maria do Espírito Santo Arcoverde, dos Albuquerque Melo, dos Cavalcanti e dos Albuquerque Maranhão. Mas era um aristocrata liberal e esclarecido, que tinha, como o primeiro Jerônimo de que descendia, um pé fincado nas casas nobres da província e do Império, e outro na taba do indio Arcoverde, na senzala dos africanos e nas ruas do Recife, a cidade rebelde por excelência.

O coronel Leonardo, pai de dona Francisquinha, foi também pai de um filho de alta reputação em Pernambuco, o dr. Gouveia de Barros (Manoel Gouveia de Barros), médico considerado e político bem sucedido, que seria Secretário de Estado e deputado federal."

Fonte:

Mourão, Gerardo Mello - Um Senador de Pernambuco - Breve Memória de Antonio de Barros Carvalho
Topbooks, 1999, 199 páginas. (págs. 26 a 31)